Mulheres: por que seu corpo, tempo e espaço não pertencem

22 agosto, 2016

Mulheres: por que seu corpo, tempo e espaço não pertencem


Quem não conhece aquela mulher profissional, mãe, dona-de-casa, esposa que corre de um lado para outro e nunca tem tempo para si? Quem nunca ouviu o discurso de que a vida de uma mulher moderna é assim mesmo? Quantos produtos, serviços e tecnologias são elaborados com o engodo de facilitar a vida da mulher moderna, torná-la mais bela, mais saudável e jovem e, quiçá, mais resistente ao corre-corre e falta de tempo de uma dupla ou tripla jornada de trabalho?

São cremes, academias tipo”vapt-vupt”, procedimentos rápidos e milagrosos que rejuvenescem e uma infinidade de outros serviços que visam atender e manter esta mulher sempre em forma, feliz e com a saúde emocional em dia.

Mas espere um instante: se temos tantos serviços e produtos com este intuito salvador por que tantas mulheres ainda se queixam de não terem tempo para si mesmas? Pois é. É sobre isso que vou falar neste artigo.

Antes de mais nada, o corpo, o tempo e o espaço são dimensões que se encontram fora do campo de atuação da mulher, ou seja, elas não têm autonomia ou propriedade sobre estes aspectos. Eles devem estar à serviço de alguém, de algum sistema ou mesmo de um conjunto de ideologias que negam, desapropriam e privatizam os desejos e as subjetividades femininas.



Em suma, estas citadas dimensões não são propriedades da mulher. Quantas mulheres não sentem uma culpa imensa quando deixam os afazeres domésticos para outro momento ou em segundo plano, quando permitem ter algumas horas de descanso e afastamento no cuidado com os filhos? Ou mesmo quando se “descuidam” do corpo e da aparência? Realmente são muitas obrigações a serem cumpridas e seguidas dentro deste corpo, espaço e temo.

Não é incomum que você encontre mulheres com empregadas em período integral que não se queixem da falta de tempo para si. Isto acontece, que mesmo com este serviço disponível, ela deve estar sempre atenta e zelosa com as atividades domésticas. 

Assim, seu tempo deve estar disponível para o marido que deseja conversar, para os filhos que vão para a escola, bagunçam a casa, vão às festinhas infantis, adoecem e por vai, para a empregada que solicita alguma orientação e para os inúmeros pequenos serviços para que a vida familiar e doméstica esteja em ordem. Mais uma vez, o tempo da mulher não é seu. O tempo é familiar.

E caso elas saiam do ambiente doméstico, é fácil encontrar mulheres que precisam (ou mesmo devem?) falar por onde andou, com quem estava o que estava fazendo para os seus maridos ou companheiros. Quando a situação é inversa, normalmente os homens se irritam ou se recusam em absoluto em responder. Quantas pessoas não conhecem piadinhas, charges ou representações da “mulher chata” que está esperando o marido ou “reclamando sem parar” das suas constantes saídas para o bar”?

 Então quer dizer que o homem tem que fazer a mesma coisa que as mulheres fazem? Não. O ponto de discussão não é este. Mas, como se tornou natural que os homens sejam donos do seu tempo e espaço enquanto, as mulheres precisam seguir roteiros e enfrentar uma infinidade de dificuldades e dilemas para sair daquele quadrado doméstico e fazer com o seu tempo o que quiser

Vamos retornar para o ambiente doméstico. É incrível como muitos homens dispõem de espaços pessoais dentro da casa: seu escritório, sua escrivaninha, seu computador cujos acessos são dificultados ou negados. Por outro lado, os espaços da mulher são “públicos” e de uso comum: qualquer um pode buscar objetos em seu armário ou pegar livremente o que aí estiver disponível. 



Fonte: Portal R7


E esta realidade se aplica aos lugares públicos e profissionais. Quantas mulheres, principalmente em ambientes profissionais machistas, não tiveram seus espaços de trabalho ou banheiros ocupados, invadidos, violados ou mesmo vandalizados? Quando estão em algum espaço público como uma festa, restaurante, dentre outros, caso elas estejam acompanhadas de um homem, ninguém invadirá seu espaço pessoal ou fará algum assédio e investida sexual. Mas caso esteja sozinha ou acompanhada de uma mulher, bom... o enredo, leitores, vocês devem conhecer muito bem.


E é nesta falta de propriedade sobre seu tempo, espaço e corpo que muitas mulheres renunciam aos planos que tinham antes do casamento ou mesmo antes de ter filhos tais como estudar ou trabalhar em projetos que visem seu desenvolvimento profissional ou pessoal. 

E assim estes pequenos e frequentes impedimentos acabam destruindo a confiança das mulheres sem si mesmas e em sua capacidade de realizar seus projetos pessoais e profissionais.


Assim, mulheres, constato que, muito possivelmente, que seu tempo, espaço e corpo nunca te pertenceram. Quem sabe, um dia, não é mesmo?

Karine David Andrade Santos
Psicóloga CRP-19/2460

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