"Eu não preciso falar para que você saiba o que eu quero": o silêncio machista

15 agosto, 2016

"Eu não preciso falar para que você saiba o que eu quero": o silêncio machista


“Eu não preciso falar para que você saiba o que o que eu quero”;” Mas você não sabe disso, eu tenho mais capacidade que você e por isso, eu posso interrompê-la o todo quando você está falando”;” Você tem o dever de detectar o meu humor mesmo que eu esteja calado”;”Por favor, não venha falar comigo. Estou em casa e aqui preciso descansar”;” Eu não quero saber sobre seus problemas e os de casa mas, quando eu quiser falar, você deve me dar toda atenção".

Estas não são frases ditas de forma explícita, mas é o que fica implícito no silêncio comum de muitos homens cujas companheiras têm a obrigação de entender, adivinhar e antecipar as necessidades e outros tipos de demandas de muitos homens machistas.

A comunicação é uma das áreas em que o machismo impera. Dentro deste contexto, a mulher é destituída do poder de persuasão e tem suas palavras destituídas de qualquer sentido e valor. Não é incomum que muitas mulheres se sintam frustradas, infantilizadas, desvalorizadas e incompreendidas quando interagem com homens machistas.

 E isto ocorre dentro de casa, no trabalho, com os amigos e na família. A mensagem implícita é: “fique calada, você não sabe de nada, preste atenção no que eu estou falando e não tenho o mínimo interesse no que você está falando.”

Para tornar mais claro o que trago para este texto, vamos demonstrar o que não é incomum encontrar no ambiente doméstico. Muitos homens são pessoas comunicativas, amáveis e alegres fora do ambiente doméstico. Mas, ao chegar em casa, tornam-se silenciosos, distraídos e parece, literalmente, que não está em casa.

Créditos:<a href="http://br.freepik.com/fotos-vetores-gratis/fundo">Fundo fotografia desenhado por Pressfoto - Freepik.com</a>


Na realidade, ele está, mas acredita que aquele lugar é do descanso pleno e não querem investir suas energias para cuidar da casa, ouvir sua companheira, ou mesmo, interagir com as crianças. Se fôssemos desenhar uma imagem, seria aquele que senta ou deita no sofá e assiste TV enquanto a mulher tenta manter algum diálogo, cuidar da casa e dos filhos.

Acredito que você pode estar perguntando: mas será que ele não pode ter o seu merecido descanso e ficar em silêncio depois de um dia exaustivo? Realmente não há problema. Mas o que eu gostaria de demarcar aqui é o quanto o homem é livre para investir sua comunicação nas esfera social e profissional já que boa parte de seus interlocutores nessa área são homens.

Em contrapartida, o ambiente doméstico, altamente desvalorizado e sob os cuidados femininos, são percebidos como áreas de descanso e lazer em que suas necessidades devem ser atendidas e seu silêncio deve ser respeitado. Afinal, para eles, isto não é visto com uma conotação agressiva ou mesmo como uma desatenção ou desvalorização da mulher e filhos.

O que podemos observar é que cabe a mulher ter os seguintes papéis dentro deste ambiente doméstico: intermediar diálogos, criar formas de comunicação, estar atenta às necessidades familiares, listar os acontecimentos domésticos, ou seja quase sempre, a mulher inicia a comunicação. A mulher solicita o acesso à comunicação e cabe ao homem o papel de dar permissão ou não à continuidade ou início da conversa.



Por isso, é muito fácil encontrar em diferentes meios de comunicação ou mesmo na publicidade, aquela velha figura: a mulher tagarela que sempre solicita atenção ao marido/companheiro que apresenta sua cara de enfado e desinteresse pelas “futilidades” ditas pela mulher.

 Quem nunca viu uma propaganda ou filme este tipo de cena? Será mesmo que a tagarelice é uma particularidade da personalidade feminina e o silêncio racional é característico da personalidade masculina? Ou estamos diante de um modelo machista dentro da comunicação em que, mais vez, o homem detém o poder de permitir quem ele vai ouvir e a mulher tenta, de alguma forma, ser ouvida?

Estas são questões que merecem nosso discernimento crítico para que possamos evitar as armadilhas do esteriótipos, principalmente, aquelas que aludem ao aspecto pouco racional e descontrolado da parte feminina e ao controle racional por parte dos homens.

Não é que a mulher é tagarela ou gosta de falar muito, mas ela procura, de alguma maneira, estabelecer uma ponte ou acesso ao homem. Ela está tentando adentrar dentro de um domínio masculino em que lá são estabelecidos quem, quando, onde e porque os interlocutores podem ser ouvidos. Assim, não é muito difícil encontrar mulheres que se sentem como “estivessem falando para a parede”.

Até mais


Karine David Andrade Santos
Psicóloga CRP-19/2460
www.eporelas.com.br
ondelaquiser@gmail.com



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