Por que ela simplesmente não vai embora?

05 agosto, 2016

Por que ela simplesmente não vai embora?




Não é incomum encontrar este questionamento nas palavras de familiares, amigos e até desconhecidos quando tomam conhecimento de história de mulheres agredidas que não abandonam os agressores/agressoras. O estranhamento é o ponto de partida para a elaboração de justificativas simplistas e machistas, dentre elas, a clássica “Mulher gosta de apanhar. ”

Mas, afinal, por que ela simplesmente não vai embora? O que faz com que muitas mulheres permaneçam em relacionamentos violentos? Será mesmo que a frase clássica “Mulher gosta de apanhar” tem fundamento? É sobre isso que vou falar nas próximas linhas.

Antes de mais nada, cabe esclarecer que a vergonha, o medo e a opressão presentes em relações violentas/ abusivas fazem com que as vítimas se sintam desamparadas, confusas e desacreditadas das próprias manifestações emocionais do seu mundo psíquico. 


Com isso, muitas não se sentem “donas de si” e “ donas da própria vida” para prosseguir sozinha ou até mesmo procurar o amparo jurídico da lei Maria da Penha. Além deste denominador comum encontrado em relacionamentos violentos, outros fatores podem levar a permanência em um relacionamento abusivo:

     1.Medo(novamente!)

A aflição física e emocional de mulheres envolvidas em relacionamentos misóginos pode fazer com que as mulheres não façam nada para evitar o parceiro e tolerem o comportamento do parceiro. Além de temer a perda do amor do parceiro, muitas temem o que ele pode fazer com elas ou mesmo as crianças. Quando mais desamparada se sente, mais opressores são seus medos.

2.Fisgadas pelo amor:

Por causa da intensidade de seus sentimentos amorosos, muitas mulheres toleram um relacionamento amoroso violento para experimentar bons momentos. Elas acreditam que o sofrimento emocional é um componente de qualquer relacionamento amoroso.

3.O paradoxo do amor independente:

Muitas mulheres acreditam que sua existência emocional está vinculada ao amor do parceiro. Seu senso de valor está atrelado à avaliação do parceiro e desconsidera todas as realizações que tenha feito na vida. Assim, para ela, a coisa mais importante é a necessidade de amor do parceiro.

4.A esperança

A esperança de que o parceiro mude, a intensidade do amor e a esperança de que algo aconteça e ele mude são aspectos que fazem com que ela permaneça no relacionamento e fique numa posição vulnerável aos insultos, mudanças de humor e humilhações do parceiro.



5.A presença da violência em seu meio social

Muitas vezes, as vítimas inseridas em ambientes sociais violentos não percebem ou naturalizam este tipo de condição em suas vidas até mesmo as sutis. Com isso, elas/eles não buscam os dispositivos legais para reivindicar os seus direitos.

6. A lavagem cerebral empreendida pelo (a) agressor (a)

A lavagem cerebral foi um mecanismo utilizado em prisioneiros de guerra constituída pelas seguintes fases: isolamento, enfraquecimento da vontade própria da vítima, vivência de medo e culpa diante das agressões e entorpecimento emocional.

O isolamento é caracterizado pelo afastamento progressivo e/ou definitivo do convívio com amigos, familiares e pessoas do trabalho. Em relação a este último ambiente, muitas (os) são impedidos de trabalhar. Isolada (o), agora ela (ele) será condicionada a ter os seus pensamentos voltados para o (a) agressor (a). 

Depois, sua própria vontade é enfraquecida e entorpecida para que a vítima fique submissa. Assim, ela não terá força emocional para sair da situação abusiva bem como sentirá culpa pelos acessos de fúria e as agressões sofridas.

7. “A distância pode fazer com que ele mude”

Algumas vítimas conseguem sair da companhia de seus (suas) agressor (as) mas, elas acreditam que este afastamento visa corrigir/ adequar o comportamento do agressor. Assim, ocorrem várias idas e vindas até que ocorra a separação definitiva.


 Com isso, percebemos que a questão de sair de um relacionamento violento é complexa e com isso, justificativas tais como: “mulher gosta de apanhar”, “isto é falta de força de vontade”, “ ela está acomodada à situação”, dentre outras, são descabidas, alimentam os estereótipos de gênero e outros pensamentos simplificadores, generalizantes e preconceituosos sobre a vítima.

O tratamento de uma vítima psicológica requer acolhimento, discernimento prático e paciência para que ela consiga dar nome a situação vivenciada o que constitui o primeiro passo rumo à saída desta relação. 

Além disso, nas agressões físicas, torna-se imprescindível o apoio familiar e social para que ela consiga acioná-los para fugir/proteger das explosões de fúria/raiva do (a) agressor (a).

Por fim, gostaria de assinalar que a violência contra a mulher é mais uma expressão de uma sociedade autoritária, patriarcal e machista que busca encaixar, moldar e engessar homens e mulheres dentro de caixinhas que sufocam e roubam a vivacidade, a originalidade, e principalmente, a dignidade humana.

Até mais!

Karine David Andrade Santos

Psicóloga CRP-19/2460

www.eporelas.com.br
ondelaquiser@gmail.com

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