As dores da vítima de violência obstétrica

06 setembro, 2016

As dores da vítima de violência obstétrica

Maria tem 25 anos, casada, grávida e frequenta o serviço público de saúde para consultas médicas e realizar seus exames do pré-natal. Mas o descaso é frequente seja na marcação das consultas ou no atendimento dos profissionais de saúde. Durante as consultas, o profissional de saúde não oferece muita atenção e assim, Maria não tem suas dúvidas sanadas sobre a gestação.

Com o tempo, ela fica “habituada” com a falta de atenção e pouca empatia do profissional de saúde. E assim com o passar do tempo, a gestação vai evoluindo e eis que Maria sente as dores do parto. Ela procura a maternidade mais próxima e lá após uma relativa espera, ela é atendida.

Durante o atendimento, são realizados os procedimentos de rotina, nenhuma pergunta é feita pelo profissional de saúde a gestante e logo depois, este fala que ela pode retornar para casa pois, a dilatação ainda não é suficiente. 

Mesmo com muitas dores, ela volta para casa e lá a intensidade das dores aumenta e assim, procura novamente a maternidade. Lá ela fica em observação e é submetida a vários toques que eram realizados por diferentes profissionais de saúde.

Maria se sente constrangida, mas, assim como durante a gestação, ela não fala. Durante este período, o companheiro de Maria chega a maternidade. Após um certo tempo, ela é levada para a sala de parto, mas seu marido é impedido de acompanhá-la. 

Devido a intensidade das dores, Maria chora e neste momento, um dos profissionais fala: ” Na hora de fazer, você não chorou”.

 Por mais que tente, ele não consegue reprimir as lágrimas. Durante o procedimento, ele se sente sozinha, irritada e humilhada pela falta de atenção e empatia da equipe que conversa sobre banalidades da vida e não oferece nenhum “conforto” emocional durante este momento.



Caro (a) leitor (a), esta história contada até aqui é fictícia, mas ela reúne diferentes abusos e violências direcionados às mulheres durante a gestação e o parto. Porém, antes de mais nada, não quero deixar aqui a impressão que todos os profissionais de saúde dos serviços públicos praticam este tipo de atendimento. 

Minha intenção neste texto não é generalizar. Mas chamar a atenção para a violência e abusos exercidos por alguns profissionais e instituições de saúde.

Para tornar esta realidade mais clara, trago aqui constatações feitas pela pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado realizada pela fundação Perseu Abramo em 2010. De acordo com o documento, 68% das entrevistadas tiveram seus partos na rede pública e cerca de 25% já foram vítimas de violência exercidas pelos profissionais de saúde.

Dentro do conjunto de práticas violentas, foram encontradas as seguintes situações: exame de toque doloroso (10%), negou ou não ofereceu algum paliativo para dor (10%), gritou com a mulher durante o trabalho de parto (9%) e não atendeu a mulher (8%). 



Também foram relatadas expressões que algumas mulheres ouvem durante o parto: não chora não que no ano que vem você está aqui de novo (15%), na hora de fazer não chorou/ não chamou a mamãe, por que está chorando agora? (14%), se gritar eu paro agora o que estou fazendo, não vou atender (6%) e se ficar gritando vai fazer mal para o seu neném, ele vai nascer surdo (5%).

Além destes maus-tratos durante o parto, é percebido que as mulheres são as principais impactadas pela violência institucional representada pela dificuldade no acesso, falta de profissionais para atendimento, escassez de atendimentos e longo tempo de espera. 

Cabe assinalar que as mulheres são as mais impactadas por que há uma condição imposta socialmente de que elas são responsáveis pelo bem-estar da família e assim, elas procuram estes serviços para algum membro da família.

O que se percebe, diante da violência institucional sofrida pelas mulheres em diferentes momentos da vida, é que a desigualdade e a exclusão são aspectos que tangenciam inúmeros aspectos da vida da mulher tanto nos espaços públicos como nos privados.

 Isto se torna emblemático pelo persistente conjunto de dificuldades que afetam o acesso da mulher a um trabalho com igualdade, à uma saúde com qualidade e à uma vida sem discriminação e violência.

Para frente a esta realidade nos serviços de saúde, são necessárias políticas e medidas que afetem a lógica que organiza a intervenção de profissionais e a dinâmica dos serviços de saúde bem como a responsabilização legal por atendimentos abusivos que violam os direitos e a autonomia das mulheres.

E quanto a lógica excludente e discriminatória no espaço privado, acredito que um dos pilares para o combate desta realidade é a educação voltada para a igualdade entre os gêneros. As desigualdades são aprendidas, criadas e reforçadas desde a infância.


E você, caro (a) leitor (a)? O que tem feito?

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