Por que algumas emoções são proibidas para homens?

11 setembro, 2016

Por que algumas emoções são proibidas para homens?

Olá caro (a) leitor (a)! Você já conheceu algum homem que fica muito bravo quando alguém diz que ele está medo? Ou mesmo já viu um pai ou mãe fala para um menino que “homens não choram! E aquele homem que ficou “roxo de vergonha” diante de uma situação vexatória, mas, ao invés de admitir ou lidar com isto de maneira mais saudável, ficou furioso ou irritado e reagiu com muita violência?

Pois é. A questão que fica no ar é a seguinte: por que existem tantos homens que não conseguem lidar com emoções básicas tais como medo, raiva e alegria? Será que é natural esta maneira de muitos homens lidarem com estas emoções? É uma predisposição biológica?

É sobre isto e muito que vou falar aqui. Então fica aqui comigo.

Muitos estudos de gênero já debruçaram seus esforços para avaliar as diferenças na vida afetiva entre homens e mulheres. Uma das constatações é que a educação emocional das crianças é distinta para meninos e meninas desde o berço. Assim, as formas de sentir, expressar e lidar com as emoções são moldadas por parâmetros definidos social e culturalmente.

Isto quer dizer que tanto meninos e meninas APRENDEM através da imitação de pais, colegas e de outras pessoas como deve lidar com o seu mundo emocional. Com isso, eles aprendem que determinadas manifestações emocionais podem ser aprovadas, outras rejeitadas ou mesmo ignoradas/ desqualificadas.




Vamos trazer exemplos para tornar a explicação mais palpável: toda vez eu um menino for desqualificado ou reprimido quando expressar o medo, ele vai aprender aos poucos que esta emoção deve ser censurada e assim, quando adulto, não saberá lidar com esta emoção. Por sua vez, quando a raiva na menina é repreendida ou desaprovada pelos pais ou seu meio social, ela também irá reprimir esta emoção e irá expressá-la de forma indireta.

Mas o que está por trás desta educação tão diferente direcionada para meninos e meninas? É justamente o modelo machista. Afinal, ele é a origem de um modelo cultural que constrói formas engessadas e pré-definidas sobre o que é ser homem e ser mulher.

 Além disso, o machismo cria uma divisão nos papéis masculinos e femininos principalmente no campo afetivo. E isto fica muito claro quando este modelo dita que os homens devem se distanciar o máximo possível de qualquer manifestação emocional feminina para que possa manter sua virilidade e masculinidade. Assim, as emoções são classificadas entre permitidas e proibidas para homens e mulheres de acordo com a ótica machista.



Dentro deste aspecto, fica o questionamento: será mesmo que existiria uma predisposição biológica na manifestação emocional entre homens e mulheres? Ou será algo estritamente construído pelo meio sócio- cultural? Ou será algo multifatorial?

Bom, existem uma infinidade de estudos que apontam para uma vertente biológica bem como outros apontam para as influências socioculturais e outros tantos para as questões multifatoriais. E aí quem estará certo? Penso que, de acordo com os nossos valores e visão de mundo, escolheremos uma das duas vertentes para explicar estas diferenças na expressão emocional. Mas algo posso citar neste texto: precisamos, enquanto conjunto social e cultural, resolver diferenças e desigualdades antes de utilizar qualquer explicação biológica. Mas por que?

Recordemos que não faz muito tempo (a Segunda Guerra Mundial é um exemplo clássico para isso) que muitas explicações biológicas e “comprovadas cientificamente” foram utilizadas para justificar atrocidades, aprovar determinados arranjos discriminatórios entre os povos ou mesmo o uso de dispositivos para extermínio em massa.

Com isso, não estou querendo invalidar o caráter científico das chamadas ciências naturais ou biológicas. Não é isso. Mas quero chamar atenção para a forma como este campo da ciência pode ser utilizada para justificar desigualdade sociais e modelos discriminatórios como o machismo.

Não é preciso ir muito longe para perceber o quanto está presente o discurso naturalizante nas palavras de pessoas comuns, da mídia, da saúde e de diferentes instituições. É um discurso que tenta explicar, justificar e moldar determinadas situações resultantes de uma aprendizagem emocional machista.

Quantas pessoas não falam as seguintes frases ou mesmo frases parecidas: ” Ah, mas homem é assim mesmo: “não consegue chorar, falar o que está sentindo e por isso, ele está assim afastando de todos! ”; ”Eu não tenho medo por isso não vou usar o cinto de segurança (pode trocar o cinto por qualquer outro dispositivo de segurança ou preventivo). Quem usa isso é fresco! ”; ”Se você for macho de verdade, você vai beber todas! ”

Será mesmo que isto é natural? Ou não são as provas de virilidade aprendidos por homens e até mesmo por mulheres sobre o que é ser viril e macho de verdade?

Este texto não teve a intenção de trazer a verdade certa e pronta sobre as questões trazidas até aqui. Mas foi um convite para que tenhamos mais atenção sobre como meninos e meninas estão educados emocionalmente e que esta aprendizagem não seja interpretada como uma mera predisposição biológica no futuro.

Até mais!

Karine David Andrade Santos

Psicóloga CRP-19/2460

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