O que a morte de Lucía Pérez quer nos contar

24 outubro, 2016

O que a morte de Lucía Pérez quer nos contar

A morte brutal e bárbara da jovem Lucía Pérez na Argentina é um daqueles casos de assassinatos de mulheres que, ao mesmo tempo, causam comoção e uma série de questionamentos.

Por que as mulheres continuam sendo mortas pelo simples fato da sua condição de gênero? Será que realmente somos frágeis dentro deste tecido social e precisamos nos cuidar para que os homens, programados biologicamente para serem violentos e sem m controle sobre os seus instintos sexuais, e por isso, não nos mate. Ou será que este é mais um resquício da velha dominação patriarcal, sexista e misógina?

Bom antes de responder a estes questionamentos, cabe realizar alguns enquadramentos conceituais. O feminicídio é entendido como homicídio de mulheres pela simples condição de gênero. Este tipo de assassinato foi tipificado no Brasil pela Lei n0 13.104/2015 que estabelece o feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio. É o assassinato da mulher por razões da condição do sexo feminino.

Dentro deste instrumento jurídico, este tipo de homicídio envolve violência doméstica/familiar e o menosprezo/discriminação contra a condição de ser mulher. Mas cabe pontuar aqui que o feminicídio não é algo isolado e motivado por situações específicas.



Ele faz parte de um continuum que engloba um processo continuado de agressões de ordem psicológica e física contra as mulheres motivado pela discriminação, opressão e toda tipo de desigualdade. O feminicídio, pela própria característica do evento, é a parte visível de um largo processo em curso de um sistema patriarcal, violento e misógino.

Mas vivemos em pleno século XXI e ainda estamos falando em sistema patriarcal? Será mesmo que a dominação das mulheres pelos homens ainda continua intacta? Ou será mesmo que os homens são programados biologicamente para serem violentos e por esta razão, eles praticam este tipo de assassinato?

Para responder a estes e a aos questionamentos anteriores, precisamos entender que a maneira estas relações de poder entre os gêneros estão circulando na sociedade e por isso mesmo, elas extrapolam os muros da nossa casa.



Apesar dos principais vitimizadores de mulheres estarem próximos das mulheres (parceiros, ex-parceiros, familiares ou outras pessoas do círculo familiar), faz-se necessário atentar para o fato destas dinâmicas de poder terem movimento livre entre espaço público e privado.

 Aliado a este aspecto, não podemos ficar apegados a determinismos de ordem biológica que estabelecem condições fixas, imutáveis e programadas sobre o que é ser homem e o que é ser mulher. Não estou aqui querendo desconsiderar o nosso aspecto biológico enquanto seres vivos. Mas trazer um entendimento de que somos seres que se constroem dentro deste aparato biológico.

Assim, estas relações de poder circulantes nos espaços públicos e privados estabelecem que brigas de casa devem ser resolvidas em casa. E na prática a violência, assim como as relações de poder, é circulante. Não podemos ficar presos apenas a análise da dominação dos homens pelas mulheres.

Não que isto não seja importante pois, eles trazem elementos muito importantes para análise do contexto de violência. Mas cabe entender que, além de cada homem e cada mulher ter uma experiência específica sobre condição de gênero, estamos imersos em um caldo cultural, social e econômico extremamente violento que aniquila, desconsidera e desvaloriza o outro em sua singularidade. São estas relações violentas que circulam entre espaço privado e espaço público.



E assim, dentro deste contexto, percebemos que as mulheres e outros grupos sociais são alvos fáceis para desta violência estrutural. Com isso, não podemos culpar indivíduos ou grupos. Aliás, quando pretendemos realizar uma análise de cunho culpabilizador, entramos uma seara muito simplificadora e superficial da situação.

Mas o que na prática acontece é que esta violência estrutural cria um terreno propício para que esta violência de gênero se faça presente com pequenas variações nas diferentes sociedades e culturas.
Além disso, o feminicídio nos conta uma realidade ainda invisível de violência doméstica que, por suas características e particularidades, precisa de uma atenção e tratamento qualificado. Por que será que muitas mulheres mortas pelos parceiros/ex-parceiros/familiares têm registros desta violência na polícia e não é feito?



Bom mais uma vez não quero apontar o dedo e culpar a polícia ou outras instituições. Mas demonstra como esta violência espraiada de forma macro e estruturalmente traz consequências para o funcionamento de instituições como a polícia.

A existência de gargalos como a insuficiência de serviços ou mesmo despreparo técnico de profissionais da área demonstra como a violência estrutural atinge frontalmente tanto as instituições públicas assim como grupos “mais sensíveis a este contexto” a exemplo  das mulheres.

Então, a vida de cada pessoa e sua singularidade, seja de um homem ou de uma mulher, somente serão levadas a sério quando esta violência em nível macro for tratada(preferia outro termo).Aliás, cuidada fica melhor. E neste aspecto, pequenas ou grandes ações são bem-vindas.



Sejam manifestações como as ocorridas na Argentina ou pequenas ações em casa para uma educação de gênero mais igualitária. Todas são válidas.

E por falar em educação de gênero, podemos perceber que esta violência se faz presente quando percebemos movimentos que praticamente demonizam e/ou tentam impedir este tipo de implantação educativa em escolas ou em casas. Esta é só uma amostra grátis do tipo de violência que estou discorrendo aqui no texto.

É sobre isso que a morte de Lucía Pérez tem a nos contar: uma realidade mundial em que a singularidade e o outro não são respeitados e isto acontece, principalmente, digamos, se este outro desviar um pouquinho daquilo que é posto como certo.

Este foi o meu recorte sobre a situação. Mas é preciso muito, muito mais para que não tenhamos nenhuma Lúcia Pérez a menos e nenhum agressor a mais.


Grande Abraço!

Karine David Andrade Santos

Psicóloga CRP-19/2460

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