Sobre ser limpa, em forma, bela e do lar

04 outubro, 2016

Sobre ser limpa, em forma, bela e do lar

Você já observou a quantidade de mulheres quase obcecadas pela limpeza e estética do corpo ou mesmo conhecedoras dos últimos artifícios, tecnologias, recursos e uma infinidade de dietas e tecnologias para manter o corpo jovem e saudável? Esta realidade não é muito diferente se partimos para o ambiente doméstico. Mesmo com os pequenos avanços na distribuição de tarefas dentro do lar entre homens e mulheres, ela ainda continua sendo o centro das decisões quanto a administração, limpeza e organização do ambiente doméstico.

Afinal será mesmo que as mulheres são naturalmente mais organizadas e limpas do que os homens? Os homens realmente não atentam para os detalhes da disposição dos objetos e organização do ambiente doméstico? Afinal porque precisamos E DEVEMOS ser BELAS, LIMPAS E DO LAR? Vem comigo!

Para falar sobre sujeira e feiura, precisamos voltar no tempo e lembrar do papel da mulher assumido durante o movimento social-puritano do século XIX. Este movimento era composto por várias organizações e campanhas que tinham os objetivos de regular, normatizar e controlar comportamentos de homens e mulheres. Nesta guerra contra a sujeira e a imoralidade, adivinhe quem ficou responsável pelo esfregão e a vassoura? Exatamente: as mulheres. Já na questão moral, os ecos das empreitadas deste movimento se fazem presentes ainda hoje na educação das meninas como frases populares: Menina, feche estas pernas quando for sentar! Não arrote e não fale palavrão! Ande como uma mocinha! Isto não são maneiras de uma menina! Bom, a lista é interminável. 





Acredito que você, caro(a) leitor(a) deve se lembrar de outras.


Através deste movimento, a virtude, a moralidade e a higiene se tornaram aspectos  relacionados ao fazer e ser feminino. Com o advento da industrialização e da higienização do corpo e dos costumes, o espaço público e o espaço privado tiveram suas fronteiras claramente delimitadas em que o público passou a ser sinônimo daquilo que é sujo e imoral e o privado, ou seja, o lar assumiu um caráter puro, santificado e guardião da moralidade e da ordem nacional. E na esteira industrial, a divisão sexual de trabalho delegou as mulheres o papel adivinhe de que? Zelar pela moralidade e higiene dos membros do grupo familiar bem como investir seu mundo psíquico em ser representante principal dos bons costumes, da limpeza e organização do lar.

Não estou aqui fazendo um combate a higiene ou qualquer outra medida sanitária que beneficie a saúde humana. A questão não é essa. Mas como ser limpa ou melhor manter as aparências da casa e do corpo em ordem e limpo constitui pontos de angústia e sofrimento para mulheres. E isto ganhou proporções inimagináveis com o crescimento da industrial comercial e das inúmeras tecnologias. Assim, não é de estranhar que a indústria tenha altos lucros com as mulheres donas-de casa principalmente de classe média. São elas que ficam apavoradas com as sujeiras invisíveis dentro de casa, as rugas imperceptíveis, a pequena flacidez do corpo e os angustiantes sinais da passagem do tempo em seu corpo.



E por falar neste corpo feminino, vamos pincelar sobre esta relação não muito amigável que as mulheres estabelecem com ele.



Para começo de conversa, praticamente boa parte das religiões abominam o corpo feminino. Em seus escritos, doutrinas e outras formas de expressão, eles o associam seja de maneira isolada ou associada a uma imagem de impuro, imoral, sujo e origem de muitas mazelas do mundo. Mas o que é que isso está relacionado com a relação com o nosso corpo? Vamos lá. Por muitos séculos, o regramento social era ditado por convicções religiosas e neste contexto, as mulheres eram classificadas como seres inferiores e o seu corpo era revestido por certa conotação perigosa ou mesmo diabólica.



Enfim, nós não éramos vistas como flor que se cheire.

E digamos que esta marca histórica está presente até hoje de uma forma ou de outra nas relações sociais. Isto explica por que é muito fácil jogar a pedra na Geni, ou seja, estuprar, violentar e agredir as mulheres de uma maneira geral. É preciso sujeitar e subjugar “este corpo mal”. E disto nem mesmo as próprias mulheres escapam quando se relaciona com os seus corpos. Assim, elas adotam todos tipos de intervenção, exercícios, dietas, recursos, cirurgias e intermináveis procedimentos para que este corpo, quem sabe um dia, seja belo, em forma, limpo, belo e quase santo.

Em suma, o que eu quis deixar foi uma reflexão sobre que o quanto as mulheres se maltratam seja para manter a aparência do lar, do corpo e até dos nossos relacionamentos para que conservamos o nosso papel de paladinas da moral, da ordem, da higiene, da forma e da estabilidade. O quanto você está se sacrificando para manter “as aparências”? Ah e antes que você veja estas mulheres obcecadas por limpeza ou pelo corpo e denominem de fúteis, superficiais ou sem miolos, perceba que, conforme foi explicado por tintitim por tintitim, que isto não foi uma mera questão de escolha individual. Há muita coisa dentro deste latifúndio!


É isso! Até mais!

Karine David Andrade Santos

Psicóloga CRP-19/2460.

Nenhum comentário

Postar um comentário

Por elas - Layout criado por WWW.GABILAYOUTS.COM.BR