Precisamos falar sobre a situação da mulher no mercado de trabalho.

25 novembro, 2016

Precisamos falar sobre a situação da mulher no mercado de trabalho.

Desvalorização do trabalho da mulher? Imagina, que assunto ultrapassado! Não deveríamos discutir isto diante de tantas conquistas seja em posições hierárquicas seja em ganhos salariais, temos vários e vários exemplos de mulheres bem-sucedidas, a diferença salarial entre homens e mulheres vem diminuindo, etc, etc”.

Realmente a situação da mulher no mercado de trabalho está aparentemente ganhando novos contornos, menos desigualdade e, quem sabe, estamos a um passo do fim de anos de injustiças praticadas pelo mercado de trabalho. Afinal, as mulheres estudam mais, são mais dedicadas, disciplinadas e outras características bem femininas muito bem aceitas pelas empresas e o sistema econômico de uma maneira geral.

Mas, mas...seja franca (o), quem não sente um quê de estranhamento/ confusão/incerteza de como deve lidar com as mulheres “poderosas”, “independentes” ou que tenham algum traço mais “masculino”. Ou mesmo quem não procura por uma característica mais viril que justifique aquela posição ocupada? Por não falar nos casos que muitos fazem uma investigação minuciosa e atenta da mulher para inferir algo que explique o poder e a competência...

O que eu quero conversar com você neste texto é sobre a posição secundária ocupada pelas mulheres no mercado de trabalho. Então vamos lá para mais um bate-papo.

Antes de mais nada, esta concepção da posição secundária da mulher no mercado de trabalho e neste caso, de desvalorização das atividades exercidas por ela, é sustentada pelo conceito de família nuclear. Dentro deste modelo familiar, o homem tem a obrigação/dever de ser o principal/único provedor enquanto cabe a mulher ser a principal e exclusiva responsável pelas atividades da esfera privada. 




Assim, diante deste dever com as atividades domiciliares, a entrada do mercado de trabalho acaba se configurando como algo secundário enquanto projeto de vida ou mesmo de identidade.

E aí você pode ter inúmeros questionamentos: mas esta realidade ainda existe hoje? Muitas mulheres estão priorizando suas atividades profissionais não é mesmo? Concordo. Mas várias destas mulheres são pressionadas, bombardeadas, ou nos casos mais amenos, questionadas de forma mais suave sobre suas intenções sobre: casar, constituir família, ter filhos, enfim, será que ela não vai sentir falta ou sofrer por não ocupar esta posição tão natural da vida da mulher??

Assim não é de estranhar que algumas formas de inserção das mulheres sejam muito visíveis na trajetória profissional das mulheres: a primeira é exercer atividades que representem uma renda pessoal ou familiar que constitua fonte secundária ou dispensável para sustento da família. Uma outra expressão desta realidade são as trajetórias sem estabilidade e repleta de interrupções em que sua saída ou entrada seria determinada por questões familiares.

Outro produto desta posição social ocupada pela mulher principalmente no imaginário empresarial é que a presença da mulher em um dado posto de trabalho representa altos custos indiretos (uma possível licença-maternidade), um provável comportamento profissional inadequado devido a faltas ou atrasos por motivos familiares e um baixo comprometimento com a empresa.




Assim, fica muito fácil excluir as mulheres das posições que requeiram um maior comprometimento com a empresa, maiores remunerações e, até mesmo, atividades com um maior nível de complexidade e prestígio para a empresa e entre os seus pares. E assim, fica muito fácil para as empresas justificarem os baixos salários e as características dos postos de trabalho normalmente ocupado pelas mulheres.

Diante deste discurso embasado por este conceito tradicional de família bem como pela lógica empresarial, as mulheres se sentem eternamente inadequadas e/ou limitadas dentro do mercado de trabalho.

Pela lógica empresarial, esta força de trabalho é problemática, pouca adequada ou diferente diante de um modelo trabalho masculino que possuem características de dedicação integral, agressividade, disciplina, virilidade e disponibilidade física e psicológica para as demandas e pressões empresariais.

Pelo conceito familiar, as atividades exercidas pela mulher em um dado contexto são revestidas pelo manto da invisibilidade, pouca importância ou mesmo dispensabilidade das tarefas exercidas por ela. Assim, a posição natural, mas desvalorizada ocupada pela mulher no espaço privado é transferido, de alguma forma, para o seu espaço profissional.

Diante de tudo o que estou dizendo, podemos perceber quais dificuldades estas mulheres bem-sucedidas enfrentam até hoje. Não é de estranhar que existam aquelas cuja vida pessoal não é prioridade pois, elas precisam provar e até defender a sua posição. Afinal, este não é seu lugar e qualquer deslize, sua competência profissional é posta em xeque.



 Além disso, ainda existem os casos em que algumas fazem uso de favores sexuais para angariar aumentos, posições e outros benefícios dentro da empresa. Dentro deste contexto, também está bem implícito que o lugar da mulher não é no mercado de trabalho.

A situação descrita acima é sentida na pele por muitas trabalhadoras que não ocupam posições hierárquicas. Ela se traduz no assédio moral, no assédio sexual, no investimento e dedicação de tempo e energia física ou psicológica para demonstrar que ela é merecedora e competente o suficiente para ocupar aquele posto de trabalho e até, em alguns casos, a necessidade de incorporar valores, digamos, “masculinos” de virilidade, assertividade e demonstração de força e capacidade técnica para estar naquela função principalmente nas atividades tipicamente masculinas.

Então, meus caros leitores, a aparente realidade de mudança e fim das desigualdades entre homens e mulheres camuflam muitos não-ditos, sofrimentos, imposições e até sofrimentos psíquicos para muitas mulheres no mercado de trabalho que, no fundo, sustenta, patrocina e se beneficia, de alguma maneira, desta posição secundária ocupada pela mulher no mercado de trabalho.

Se você quer contribuir com este texto, tira dúvidas ou tem alguma sugestão de texto, fiquem à vontade.

Grande Abraço! Fiquem em paz!

Karine David Andrade Santos

Psicóloga CRP-19/2460

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