Quando o trabalho se torna um martírio: vivendo a tortura do assédio

01 novembro, 2016

Quando o trabalho se torna um martírio: vivendo a tortura do assédio

Maria era funcionária da empresa X e lá desenvolvia inúmeras atividades que iam desde servir ao cafezinho até realizar tarefas que extrapolavam a suas competências e habilidades. Não era incomum que, ao servir o cafezinho durante as reuniões, seu chefe realizasse comentários, no mínimo, constrangedores sobre a sua roupa ou a maneira como se comportava.

Além desta situação, outros colegas teciam comentários desagradáveis e de duplo sentido sobre as tarefas realizadas por Maria. E este não foi um episódio isolado. As piadinhas, os gestos, as intimidações e os constrangimentos se tornaram frequentes e aumentaram tanto em relação a intensidade como no tom e desqualificação.

E assim, aos poucos, Maria percebeu que não se animava para ir ao trabalho, tornou-se irritadiça e procurou se isolar dos demais colegas do trabalho. Muitos não entendiam o que estava acontecendo com Maria. Eis que ela é diagnosticada com depressão e necessita tirar licença para tratamento de saúde. E assim fica a questão: o que aconteceu com Maria??

Esta é uma história fictícia, mas que, possivelmente ao ler, você pode encontrar elementos que remetem a situações de pessoas conhecidas. Mas afinal o que é necessariamente o assédio?

 Para estudiosa do assunto Marie-France Hirigoyen o assédio é caracterizado por toda e qualquer conduta abusiva manifestada através de comportamentos, palavras, atos, gestos e escritos que causem prejuízos à personalidade, à dignidade ou à integridade psíquica ou física da pessoa colocando em perigo o seu emprego e trazendo danos para o ambiente de trabalho.

O que sustenta esta prática é o abuso de poder. Ele se inicia como algo inofensivo, mas suas proporções se expandem com o passar do tempo. É algo desumano, assustador, sem emoções e piedade. E sua gravidade se acentua caso alguém de fora de contexto não realize intervenções de forma imediata



                                                Nem sabemos como reagir a isso não é mesmo?

Ele se instala quando a vítima reage a um comentário, atitude autoritária ou qualquer forma de subjamento. De acordo com pesquisa, as mulheres são as maiores vítimas de assédio no ambiente do trabalho sendo que o assédio sexual é de longe o mais frequente.

Para que você tenha clareza sobre esta situação, cito aqui algumas situações típicas de assédio:

1.      Estabelecer orientações sem precisão e clareza ao trabalhador;
2.      Atribuir erros inexistentes ao trabalhador;
3.      Solicitar trabalhos urgentes sem necessidade;
4.      Sobrecarga de tarefas
5.      Ignorar o trabalhador na frente de outras colegas (a sensação de que você é invisível)
6.      Faz críticas ou brincadeiras de mau gosto direcionadas a você em público
7.      Faz circular comentários maldosos ou desqualificadores
8.      Isolar o trabalhador
9.      Realiza outras práticas que força o trabalhador a pedir demissão ou solicitar mudança de setor
10.  Controle da frequência e utilização de banheiros
11.  Contestação sistemática e frequente de suas decisões
12.  Privá-la de acesso aos instrumentos de trabalho
13.  Interferir no planejamento familiar das mulheres impedindo que elas engravidem
14.  Desconsiderar problemas de saúde ou recomendações médicas na distribuição de tarefas

Estas são as principais, mas, infelizmente, existem inúmeras outras práticas de assédio. E a lógica empresarial e capitalista que prima pela produtividade e o lucro cria um terreno e fértil para este tipo de prática.

Para que você tenha uma ideia, digamos que o perfil das vítimas é escolhido a dedo pelo assediador: pessoas perfeccionistas, escrupulosas e honestas que realizam suas atividades a contento; são mulheres grávidas ou com filhos pequenos; são pessoas que, devido a algum problema de saúde ou limitação física, não pode realizar todas as atividades; são trabalhadores que se encontram em contrato de trabalho precário e/ou facilmente sujeito a desligamento; mulheres em atividades ou trabalhos “masculinos” ou aqueles que, de alguma forma, divergem dos presentes naquele ambiente.



Se observar bem o que foi dito agora, as mulheres são os alvos principais por que, para o mercado de trabalho e a lógica capitalista, a força de trabalho feminina é barata e facilmente descartada.

Além disso, elas engravidam, precisam cuidar de filhos, pode faltar ao trabalho quando os filhos adoecem... assim, a conciliação entre trabalho produtivo e reprodutivo constitui uma massacre/tortura para muitas. Pena que algumas adotam e aceitam a figura de supermulher que faz tudo. Sabemos que o custo disto é muito alto não é mesmo?

Voltando a questão do assédio, as consequências para homens e mulheres são: depressão, angústia, estresse, falta de interesse pelo trabalho, irritação, sentimentos de culpa, insônia, alterações de sono e apetite, crises de choro, mal-estar físico e psíquico, isolamento, tristeza, diminuição da capacidade de concentração, uso de drogas, dentre outras.



Mas você que está lendo pode perguntar: é extremamente difícil e complicado fazer qualquer tipo de denúncia ou enfrentamento. O que faço? Quem vai se importa com isso??


Normalmente esta situação é muito comum por que o clima, a estrutura organizacional, a relação dentro do ambiente do trabalho, a conivência do seu superior ou outras formas de conchave instalam o medo e silêncio diante do que está acontecendo. Além disto, muitas vítimas costumam ser estigmatizadas e assim, elas passam a ser culpadas pelo ocorrido.


De qualquer forma, deixo aqui para você algumas orientações úteis: anote todos os detalhes das ocorrências de assédio (local, pessoas envolvidas, dia, horário, presença de testemunhas, dentre outras), evite conversar com o agressor sem testemunhas, busque apoio de familiares e amigos e caso você queira realizar a denúncia, identifique os órgãos com ação punitiva/coibidora efetiva dentro da empresa. Externamente, procure o Ministério Público do trabalho, sindicatos e secretarias do trabalho.

Caso o contexto ou outros fatores impeçam realizar algum tipo de atitude, trago uma questão para você: até onde vale a pena continuar neste trabalho? Você consegue realizar algum planejamento para seu desligamento? O que te impede?

Realize uma análise da sua situação econômica, social e familiar e trace alternativas. Você não merece o que está acontecendo! Sua vida vale muito mais que isso!!conte comigo! Estou à disposição!

Grande Abraço!

Karine David Andrade Santos

Psicóloga CRP-19/2460

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