Agosto 2016

28 agosto, 2016

Seis passos para construir um futuro misógino(e como fazer para desconstruir)

Por que será que dei tanto carinho para o filho e hoje ele me trata mal e desrespeita a companheira e qualquer outra mulher ao seu redor? Suportei uma péssima relação com o meu marido durante anos com o meu marido e hoje vejo que ele é tão agressivo com a esposa como o pai era comigo?

Esta são algumas perguntas de mães, amigos e outras pessoas do círculo social e familiar de um homem agressivo quando não encontram causas ou motivos para o comportamento violento/ abusivo daquela pessoa.

Por mais que seja duro, infelizmente, este homem violento/abusivo APRENDEU/COMPREENDEU, seja de maneira explícita ou implícita, que ele deve ter o comando e a superioridade naquela relação

Este é o primeiro ponto básico que sustenta a assimetria nas relações de uma maneira geral e o ponto de partida para a prática de abusos e/ou atos de violência direcionados para a companheira/esposa.



Estamos imersos em uma sociedade machista, sexista e misógina que exacerba as provas de masculinidade que sempre põem em xeque a virilidade, a força, o poder, a violência e a autoridade. 

Com isso, não é incomum que muitos homens interpretem ou entendem atitudes ou comportamentos de seu companheiro como uma afronta a sua masculinidade e poder dentro daquela relação.

Além deste aspecto sociocultural, conforme mencionado anteriormente, estes homens aprendem este modelo misógino e agressivo dentro do ambiente familiar. 

Para esclarecer melhor esta questão, trago algumas questões sobre misoginia tratados no livro Homens que odeiam suas mulheres e As mulheres que os amam de autoria da Dra. Susan Forward e Joan Torres:

1.Pais misóginos

Homens cujos pais têm ideias fixas e rígidas sobre os papéis de homens e mulheres aprendem que, dentro da relação, o homem tem o papel de comando e suas ordens devem ser obedecidas de maneira passiva pela mulher.

2.Seja como seu pai e você estará seguro

Algumas crianças são criadas em ambientes em que o pai agressivo e autoritário representa a figura de fortaleza e segurança. Suas atitudes trazem a mensagem de que a sua maneira de ser é o modelo a ser seguido.

Assim, ao se identificar com o pai, o menino reproduz a tirania e o abuso com as mulheres em sua relação no futuro.

3.Quando a mãe assume o papel de vítima

Mulheres submetidas a uma relação opressiva com seus maridos se submetem ao papel de vítima e com isso, ele se comporta como uma criança desamparada.
Assim, as crianças não possuem um modelo de figura materna forte bem como não têm um adulto que proteja das agressões e ameaças do pai.

4.A opressão é única forma de controlar as mulheres

Um homem com um pai misógino aprende que o homem tem o direito de controlar, desdenhar e menosprezar a mulher desde pequeno.

Assim, a partir desta ideia de controle, ele acredita que pode magoar, assustar e inibir a mulher para que possa exercer o seu poder.





5.Não confie nas mulheres

Homens que foram maltratados na infância pelo pai, muitas vezes, costumam culpar a mãe tanto ou mais que os pais pelos maus-tratos que foram submetidos.

Isto por que a criança espera que a mãe conforte e traga o amor, mas caso isto não aconteça, a vitimização da mulher em um ambiente familiar opressor faz com que ela não seja esta figura esperada de amor, conforto e segurança.

6.Quando a mãe é opressiva

Quando mães exercem o controle em tudo e todos no ambiente familiar e proporciona proteção excessiva aos filhos e o pai é uma figura passiva, o filho pode se tornar um misógino em decorrência do excesso de controle e proteção da mãe.

Na vida adulta, este se sente incapaz e desamparado diante de figuras femininas e com isso, pode chegar a maltratá-las e odiá-las.



Assim, o ambiente familiar tem grande peso na construção de futuros misóginos. Para fazer a esta realidade, é necessário uma cultura e paz e igualdade entre homens e mulheres.

Por mais utópico que seja, as pequenas ações têm grande potencial para mudança e acredito que assim como passo-a-passo construímos a violência e a misoginia, também podemos desconstruí-la.

Fiquem em paz! Grande Abraço!

Karine David Andrade Santos
Psicóloga CRP-19/2460


Como o machismo torna homens e mulheres inúteis?


Você, cara leitora, já se sentiu invisível ou desqualificada em momentos de reunião social ou profissional? Já se perguntou o que estava fazendo ali e teve vontade de sumir do local? Ou mesmo não recebeu a atenção de um vendedor de loja quando estava na companhia de um homem, ou seja, o vendedor deu atenção para aquele que supostamente decide a compra?

Talvez esta última situação não seja tão comum. Mas qual mulher não teve que apresenta um sorrisinho sem graça e sociável quando homens falavam piadas ou comentários, no mínimo, maliciosos sobre as mulheres?

São pequenos gestos, silêncios, falta de atenção e desqualificação da presença feminina em ambientes públicos e até mesmo privados que demonstram como o machismo pode se fazer presente sem muita visibilidade.

Muitas mulheres costumam ser silenciadas por gestos impacientes, suspiros de enfado, olhares recriminadores, desvios de atenção, mudança no assunto central do diálogo ou pelos clássicos: ” Vai começar outra vez” ou “. Não comece! ”. Mas alguns podem estar pensando?

”Ah, também existem mulheres que falam demais e por isso, eu perco a paciência. ” Daí eu pergunto: “Por que existem mulheres que estão sempre falando muito? Será que você REALMENTE escutou o que ela tem a dizer? Ou direcionou sua atenção para aquilo que você quer?

Não quero aqui travar uma batalha contra os homens, mas apresenta como o machismo deixa armadilhas para homens e mulheres. E estas armadilhas repercutem na qualidade dos relacionamentos. Muitas mulheres se sentem aviltadas e menosprezadas quando são exigidas ter inteira disponibilidade para atender as demandas dos homens em diferentes ambientes da sua vida.

Assim, não é difícil encontrar mulheres que devem (isso mesmo é obrigação!) Trazer água, café, procurar números telefones e fazer uma infinidade de tarefas pequenas que consomem o tempo da mulher. Afinal, estas tarefas são coisas de mulher.

Dentro destas situações apresentadas, o que fica claro é que o conforto do homem é mais precioso e útil do que o da mulher.



Mas para que esta situação se construa, cabe lembrar que, muito possivelmente, este homem APRENDEU que as mulheres devem ter seu tempo e espaço disponíveis para ele e, ao mesmo tempo, aquela mulher que atende a todas as demandas do homem, também APRENDEU que este é o seu dever.

Assim, o machismo é uma forma de enquadrar e aprisionar homens e mulheres em papéis pré-definidos.

Com estes papéis pré-definidos, criamos uma legião de homens e mulheres inúteis. Os homens não sabem preparar seu café-da-manhã, falar sobre seus sentimentos, costurar um botão, fazer tarefas domésticas como varrer, lavar louça, cuidar das crianças...

 E o que costuma ser engraçado é que muitas mulheres se apressam em intervir rapidamente quando eles experimentam entrar em atividades “femininas”: “Saia daqui, pois você vai queimar a comida! ”, ” Esta camisa está malpassada. Eu vou passá-la novamente! ”

 E é assim neste jogo que os homens se declaram incompetentes e inaptos para exercer as atividades domésticas. Ao mesmo tempo, as mulheres fazem uso deste discurso para reservar uma quantidade de atividades e habilidades domésticas para si e com isso, encontram uma forma segura de se tornarem indispensáveis.

Por outro lado, as mulheres se declaram incompetentes para resolver grande parte dos problemas cotidianos como: trocar uma lâmpada, pendurar o quadro e, principalmente, atividades de manutenção do carro. Muitas nunca aprenderam e nem cogitam a possibilidade de aprender. 

Este tipo de atitude potencializa a dependência das mulheres em relação aos homens bem como dá margem a ideia de que realmente existem áreas femininas e masculinas.


O que gostaria de deixar claro é que tanto homens como mulheres precisam experimentar atividades e habilidades diversas na vida. Mas isto só será possível se tivermos alterações substanciais na maneira como meninas e meninos são educados em diferentes âmbitos da sua vida.



A curiosidade e o experimentar são ceifados pelo discurso e por práticas machistas. Muitas crianças são recriminadas de diferentes maneiras quando tentam adentrar em atividades e habilidades do sexo oposto. E este trânsito é mais bloqueado principalmente para os meninos que queiram brincar e interagir com “coisas de menina”.


E assim vamos separando homens e mulheres em caixinhas herméticas cujas possibilidades de comunicação são interrompidas ou prejudicadas pela omissão, menosprezo, desqualificação ou silêncio patrocinados pelo discurso machista e estereotipado.

22 agosto, 2016

Mulheres: por que seu corpo, tempo e espaço não pertencem


Quem não conhece aquela mulher profissional, mãe, dona-de-casa, esposa que corre de um lado para outro e nunca tem tempo para si? Quem nunca ouviu o discurso de que a vida de uma mulher moderna é assim mesmo? Quantos produtos, serviços e tecnologias são elaborados com o engodo de facilitar a vida da mulher moderna, torná-la mais bela, mais saudável e jovem e, quiçá, mais resistente ao corre-corre e falta de tempo de uma dupla ou tripla jornada de trabalho?

São cremes, academias tipo”vapt-vupt”, procedimentos rápidos e milagrosos que rejuvenescem e uma infinidade de outros serviços que visam atender e manter esta mulher sempre em forma, feliz e com a saúde emocional em dia.

Mas espere um instante: se temos tantos serviços e produtos com este intuito salvador por que tantas mulheres ainda se queixam de não terem tempo para si mesmas? Pois é. É sobre isso que vou falar neste artigo.

Antes de mais nada, o corpo, o tempo e o espaço são dimensões que se encontram fora do campo de atuação da mulher, ou seja, elas não têm autonomia ou propriedade sobre estes aspectos. Eles devem estar à serviço de alguém, de algum sistema ou mesmo de um conjunto de ideologias que negam, desapropriam e privatizam os desejos e as subjetividades femininas.



Em suma, estas citadas dimensões não são propriedades da mulher. Quantas mulheres não sentem uma culpa imensa quando deixam os afazeres domésticos para outro momento ou em segundo plano, quando permitem ter algumas horas de descanso e afastamento no cuidado com os filhos? Ou mesmo quando se “descuidam” do corpo e da aparência? Realmente são muitas obrigações a serem cumpridas e seguidas dentro deste corpo, espaço e temo.

Não é incomum que você encontre mulheres com empregadas em período integral que não se queixem da falta de tempo para si. Isto acontece, que mesmo com este serviço disponível, ela deve estar sempre atenta e zelosa com as atividades domésticas. 

Assim, seu tempo deve estar disponível para o marido que deseja conversar, para os filhos que vão para a escola, bagunçam a casa, vão às festinhas infantis, adoecem e por vai, para a empregada que solicita alguma orientação e para os inúmeros pequenos serviços para que a vida familiar e doméstica esteja em ordem. Mais uma vez, o tempo da mulher não é seu. O tempo é familiar.

E caso elas saiam do ambiente doméstico, é fácil encontrar mulheres que precisam (ou mesmo devem?) falar por onde andou, com quem estava o que estava fazendo para os seus maridos ou companheiros. Quando a situação é inversa, normalmente os homens se irritam ou se recusam em absoluto em responder. Quantas pessoas não conhecem piadinhas, charges ou representações da “mulher chata” que está esperando o marido ou “reclamando sem parar” das suas constantes saídas para o bar”?

 Então quer dizer que o homem tem que fazer a mesma coisa que as mulheres fazem? Não. O ponto de discussão não é este. Mas, como se tornou natural que os homens sejam donos do seu tempo e espaço enquanto, as mulheres precisam seguir roteiros e enfrentar uma infinidade de dificuldades e dilemas para sair daquele quadrado doméstico e fazer com o seu tempo o que quiser

Vamos retornar para o ambiente doméstico. É incrível como muitos homens dispõem de espaços pessoais dentro da casa: seu escritório, sua escrivaninha, seu computador cujos acessos são dificultados ou negados. Por outro lado, os espaços da mulher são “públicos” e de uso comum: qualquer um pode buscar objetos em seu armário ou pegar livremente o que aí estiver disponível. 



Fonte: Portal R7


E esta realidade se aplica aos lugares públicos e profissionais. Quantas mulheres, principalmente em ambientes profissionais machistas, não tiveram seus espaços de trabalho ou banheiros ocupados, invadidos, violados ou mesmo vandalizados? Quando estão em algum espaço público como uma festa, restaurante, dentre outros, caso elas estejam acompanhadas de um homem, ninguém invadirá seu espaço pessoal ou fará algum assédio e investida sexual. Mas caso esteja sozinha ou acompanhada de uma mulher, bom... o enredo, leitores, vocês devem conhecer muito bem.


E é nesta falta de propriedade sobre seu tempo, espaço e corpo que muitas mulheres renunciam aos planos que tinham antes do casamento ou mesmo antes de ter filhos tais como estudar ou trabalhar em projetos que visem seu desenvolvimento profissional ou pessoal. 

E assim estes pequenos e frequentes impedimentos acabam destruindo a confiança das mulheres sem si mesmas e em sua capacidade de realizar seus projetos pessoais e profissionais.


Assim, mulheres, constato que, muito possivelmente, que seu tempo, espaço e corpo nunca te pertenceram. Quem sabe, um dia, não é mesmo?

Karine David Andrade Santos
Psicóloga CRP-19/2460

20 agosto, 2016

Cinco momentos das Olimpíadas que derrubam o preconceito contra a mulher




As Olimpíadas 2016 estão chegando ao fim neste final de semana. Confesso que, em razão do histórico uso da política do pão e circo para desviar os espectadores de sua realidade social, inicialmente não estava animada e até desatenta aos jogos. Mas, aos poucos, foram surgindo imagens, momentos, jogos e falas que remetiam ao empoderamento feminino e a queda de conceitos machistas e sexistas.

Então serão listados momentos e imagens que traduzem um pouco do que eu estou falando.


1       1.O Futebol Feminino Brasileiro

Em pleno país do futebol, eminentemente marcado pelo machismo, as mulheres jogaram como mulheres. Nem menos técnico nem mais técnico. Como mulheres. Apesar da atenção da torcida se volta para o futebol feminino brasileiro quando o masculino não estava bem, é inegável que um muro da entrada das mulheres em uma área eminentemente masculina está começando a cair.

São as inúmeras dificuldades enfrentadas pelas mulheres dentro deste esporte tais como dificuldade de patrocínio, disparidades na remuneração, falta de apoio de uma equipe multidisciplinar, dentre outras, fica a lição de como precisamos que menino, naturalmente, ” quer brincar de bola” e menina, naturalmente”, quer brincar de boneca”.

Apesar de não terem conquistado medalhas, elas deixaram bem claro em suas jogadas e entrosamento que meninos e meninas precisam experimentar e escolher suas brincadeiras.



2        2.  O desabafo de Joana Maranhão


Alvo de comentários misóginos, xenófobos e de ataque a sua integridade física nas redes sociais, Joana Maranhão falou em entrevista sobre o racismo, o machismo e a homofobia em nosso país. Dentre os comentários, ela leu que merecia ser afogada e até estuprada o que remeteu ao trauma sofrido pela atleta no passado. Veja um trecho da entrevista:


Fonte: Revista Fórum


“O Brasil é um país muito racista, preconceituoso, racista, homofóbico, voltado ao futebol, e os ataques que são feitos lá as pessoas pensam que não afeta. Eu sempre me posicionei politicamente, porque sinto que todo ser humano tem um papel a fazer, mas eu quero um país para todo mundo. Não quero que a Tais Araújo seja chamada de ‘macaca’, que a Rafaela Silva seja chamada de ‘decepção’, amarelona'”.

Fonte: Revista Fórum

Este episódio é exemplar sobre como proceder em casos de violência por que muitas mulheres se calam diante de ofensas, da violência psicológica e da misoginia. Joana Maranhão expos sua indignação e revolta para a imprensa brasileira e mesmo com a magnitude dos comentários e do abalo emocional, ela não permitiu ficar calada. #todasomosjoanamaranhão


3.         3. O ouro de Rafaela Silva

 A primeira medalha olímpica de ouro para o Brasil nestes jogos olímpicos foi protagonizada por uma homossexual, negra e pobre. Ouro no judô peso leve, a conquista foi um verdadeiro tapa na cara de homofóbicos, racistas e preconceituosos. Além disso, foi a oportunidade que ela teve para desabafar que “o macaco saiu da jaula”.


Após a eliminação nas oitavas de final nos jogos olímpicos de Londres, Rafaela foi chamada de macaca e leu em suas redes sociais que ela era uma vergonha para sua família. Ela passou por um período depressivo que quase fez com que ela desistisse de lutar. Mas, com o apoio de uma psicóloga, Rafaela deu a volta por cima e calou a homofobia e o racismo em um só golpe.


           4.O ouro de Martina Grael e Kahena Kunze na vela.

Mais um preconceito sendo desafiado: mulheres não têm noção espacial e/ou não sabem dirigir. Filha do lendário atleta Torben Grael, Martina contou com o apoio do pai e técnico bem como de companheiros do esporte.


E aí, caro (a) leitor (a), será que estamos incentivando nossas meninas e mulheres ou mesmo deixando que experimentem atividades que envolvam noções espaciais? Será que é natural a mulher não ter senso espacial?


5.         5.A força do corpo feminino


Em diferentes modalidades, tivemos oportunidade de ver que o corpo feminino não é tão frágil como parece. Para ilustra de forma mais clara esta afirmação, foi possível assistir a força da pequena Flávia Saraiva com seu 1,33 metro de altura e seus 33 quilos que voava na competição da trave.


A força e resistência de ginastas brasileiras, como Daniele Hypólito, e de atletas de outros países como Simone Biles demonstram que está na hora de rever conceitos sobre força e resistência dos corpos masculinos e femininos.



E para você caro (a) leitor (a)? O que as mulheres te ensinaram nas Olimpíadas 2016?

Karine David Andrade Santos
Psicóloga CRP-19/2460

17 agosto, 2016

5(cinco) formas de controle que você pode estar submetido(a)( e nem percebe!)

“Com quem você está falando? ”; ”Você está onde? ”; ”com você vai sair? ”; ”. Por que você ainda não chegou? ”” Quem é esta pessoa com que você está trocando mensagens? ”; ”. Achei este presente na sua gaveta. Quem foi que te deu? ”. Você deveria ter chegado mais cedo. Por que não chegou? ”, ” O que você está pensando agora? ” 

Pois é. São inúmeras as perguntas que não caberiam neste texto. Mas o objetivo é o mesmo: o controle. Mas você pode questionar: qualquer pergunta das citadas é um controle? Não é bem assim. Para esclarecer melhor, vou explicar quais são as características do controle.

O controle é exercido por práticas de monitoramento através de perguntas e pesquisas continuas, repetitivas e inquisidoras sobre atitudes, comportamentos, sentimentos, deslocamentos, intenções e interações com mundo realizados pela pessoa controlada.

O controlador (a) precisa ter certeza de que a pessoa não sairá do seu domínio e para isso, adentrará no espaço psíquico e nos objetos pessoais da pessoa controlada (o).

A vítima deste tipo de violência se sente invadido (a), sufocado (a) e aprisionado (a).
Para evitar confrontos e divergências, a pessoa controlada aceita as práticas uma vez que este tipo de prática se instala em relações assimétricas em que um detém o poder dentro da relação.




Então pelo que foi dito anteriormente, o poder sobre o tempo, o espaço e, quiçá, até do mundo psíquico da pessoa controlada são os espaços de atuação do controlador (a). Além disso, a continuidade e a repetição são dois aspectos principais deste tipo de violência psicológica.

Mas quais são as áreas preferenciais de controle? Como posso identificar este tipo de violência?

1           
            1.O dinheiro

    O dinheiro é revestido de significado emocional e simbólico. Dentro de um relacionamento   controlador, a pessoa controladora pode dar ou negar o dinheiro como uma maneira de dar ou negar o afeto ao outro. Normalmente, o (a) agressor (a) dificulta o acesso ao dinheiro bem como informações sobre este e bens patrimoniais.

Por outro lado, existe um perfil que, ao ser sustentado pela vítima, ele (ela) manipula emocionalmente através da transferência da culpa pelos seus fracassos para a vítima.

2.O contato social e familiar

Quando a vítima possui fortes ligações emocionais com a família e com os amigos, o contato com os familiares/amigos é o ponto principal para ataques verbais e conflitos. Esta ligação emocional é vista como uma ameaça ao controle d o (a) agressor (a).

        3.O tempo e o espaço

      As práticas de monitoramento ganham corpo nas dimensões de tempo e espaço da pessoa controlada. Isto quer dizer que o (a) controlador (a) exige verdadeiros “relatórios” do seu tempo e espaço.

Quer saber  com quem, por que, onde, como e para que você estava com determinada pessoa ou grupo bem como avalia o tempo gasto com cada atividade feita ao longo do dia. Para isso, ele (ela) pode ligar para a pessoa controlada várias vezes ao dia, checar mensagens, e-mails, roupas, documentos e outros objetos pessoais.

Há quem perceba isto como cuidado ou até mesmo a própria pessoa controladora sinalize suas atitudes como ações de cuidado. Mas esta repetição te deixará sufocada (o), irritado (a) e cauteloso (a) com que o faz no espaço e tempo. Assim, você já estará sofrendo as consequências da violência psicológica e nem esteja percebendo.



      4. A comunicação

  O(a) controlador(a) procura analisar, avaliar, encontrar pontos discordantes e distorcer as palavras da pessoa controlada. Não é incomum, principalmente quando os homens são controladores, que as mulheres sejam interrompidas em suas explicações e sejam interrogadas de forma inquisidora e profunda sobre seus pensamentos, comportamentos, contatos, ações e uso do tempo e espaço.

   5. O corpo

Não é incomum encontrar os vários questionamentos ou mesmo críticas sobre o vestuário, formas de andar, sentar ou qualquer expressão corporal emitida pela pessoa controladora para o (a) controlado (a). Com isso, quem está sob o controle desenvolve um estado permanente de atenção sobre este aspecto.

Na intimidade, durante o contato sexual, as vítimas de violência psicológica ficam mais suscetíveis aos ataques do (a) parceiro (a). Assim, são comuns críticas ao corpo, ao desempenho, ignorar as preferências e conforto do outro bem como as perguntas inquisidoras sobre a presença ou ausência do desejo da parceira.

Com o passar do tempo, a pessoa controlada perde o domínio destas áreas uma vez ficará atento (a) e cauteloso (a) ao que faz de maneira que tente evitar ou diminuir a frequência das práticas de controle.


Com isso, pergunto a você, caro (a) leitor (a)? Você tem autonomia nestas áreas ou estão sob jugo de alguém controlador (a)? 

Pense nisso! Até a próxima.

15 agosto, 2016

"Eu não preciso falar para que você saiba o que eu quero": o silêncio machista


“Eu não preciso falar para que você saiba o que o que eu quero”;” Mas você não sabe disso, eu tenho mais capacidade que você e por isso, eu posso interrompê-la o todo quando você está falando”;” Você tem o dever de detectar o meu humor mesmo que eu esteja calado”;”Por favor, não venha falar comigo. Estou em casa e aqui preciso descansar”;” Eu não quero saber sobre seus problemas e os de casa mas, quando eu quiser falar, você deve me dar toda atenção".

Estas não são frases ditas de forma explícita, mas é o que fica implícito no silêncio comum de muitos homens cujas companheiras têm a obrigação de entender, adivinhar e antecipar as necessidades e outros tipos de demandas de muitos homens machistas.

A comunicação é uma das áreas em que o machismo impera. Dentro deste contexto, a mulher é destituída do poder de persuasão e tem suas palavras destituídas de qualquer sentido e valor. Não é incomum que muitas mulheres se sintam frustradas, infantilizadas, desvalorizadas e incompreendidas quando interagem com homens machistas.

 E isto ocorre dentro de casa, no trabalho, com os amigos e na família. A mensagem implícita é: “fique calada, você não sabe de nada, preste atenção no que eu estou falando e não tenho o mínimo interesse no que você está falando.”

Para tornar mais claro o que trago para este texto, vamos demonstrar o que não é incomum encontrar no ambiente doméstico. Muitos homens são pessoas comunicativas, amáveis e alegres fora do ambiente doméstico. Mas, ao chegar em casa, tornam-se silenciosos, distraídos e parece, literalmente, que não está em casa.

Créditos:<a href="http://br.freepik.com/fotos-vetores-gratis/fundo">Fundo fotografia desenhado por Pressfoto - Freepik.com</a>


Na realidade, ele está, mas acredita que aquele lugar é do descanso pleno e não querem investir suas energias para cuidar da casa, ouvir sua companheira, ou mesmo, interagir com as crianças. Se fôssemos desenhar uma imagem, seria aquele que senta ou deita no sofá e assiste TV enquanto a mulher tenta manter algum diálogo, cuidar da casa e dos filhos.

Acredito que você pode estar perguntando: mas será que ele não pode ter o seu merecido descanso e ficar em silêncio depois de um dia exaustivo? Realmente não há problema. Mas o que eu gostaria de demarcar aqui é o quanto o homem é livre para investir sua comunicação nas esfera social e profissional já que boa parte de seus interlocutores nessa área são homens.

Em contrapartida, o ambiente doméstico, altamente desvalorizado e sob os cuidados femininos, são percebidos como áreas de descanso e lazer em que suas necessidades devem ser atendidas e seu silêncio deve ser respeitado. Afinal, para eles, isto não é visto com uma conotação agressiva ou mesmo como uma desatenção ou desvalorização da mulher e filhos.

O que podemos observar é que cabe a mulher ter os seguintes papéis dentro deste ambiente doméstico: intermediar diálogos, criar formas de comunicação, estar atenta às necessidades familiares, listar os acontecimentos domésticos, ou seja quase sempre, a mulher inicia a comunicação. A mulher solicita o acesso à comunicação e cabe ao homem o papel de dar permissão ou não à continuidade ou início da conversa.



Por isso, é muito fácil encontrar em diferentes meios de comunicação ou mesmo na publicidade, aquela velha figura: a mulher tagarela que sempre solicita atenção ao marido/companheiro que apresenta sua cara de enfado e desinteresse pelas “futilidades” ditas pela mulher.

 Quem nunca viu uma propaganda ou filme este tipo de cena? Será mesmo que a tagarelice é uma particularidade da personalidade feminina e o silêncio racional é característico da personalidade masculina? Ou estamos diante de um modelo machista dentro da comunicação em que, mais vez, o homem detém o poder de permitir quem ele vai ouvir e a mulher tenta, de alguma forma, ser ouvida?

Estas são questões que merecem nosso discernimento crítico para que possamos evitar as armadilhas do esteriótipos, principalmente, aquelas que aludem ao aspecto pouco racional e descontrolado da parte feminina e ao controle racional por parte dos homens.

Não é que a mulher é tagarela ou gosta de falar muito, mas ela procura, de alguma maneira, estabelecer uma ponte ou acesso ao homem. Ela está tentando adentrar dentro de um domínio masculino em que lá são estabelecidos quem, quando, onde e porque os interlocutores podem ser ouvidos. Assim, não é muito difícil encontrar mulheres que se sentem como “estivessem falando para a parede”.

Até mais


Karine David Andrade Santos
Psicóloga CRP-19/2460
www.eporelas.com.br
ondelaquiser@gmail.com



11 agosto, 2016

Como posso saber se sou vítima de violência psicológica?( 9 sinais de alertas que vão te ajudar a descobrir agora!)

Será que estou exagerando?Estou realmente fazendo em um tempestade em um copo de água? Será que ele(ela) tem razão quando diz sou “muito nervoso(a) ou muito sentimental?”

Os questionamentos são inúmeros, mas o sentimento de culpa está presente  nas vítimas  de todos os tipos de situações de violência.

Ela ganha um tonalidade mais nebulosa quando são utilizadas as palavras como forma de agredir. A vítima se sente confusa, perde a confiança em seus sentimentos e mergulha em um clima de incerteza que faz com que o(a) agressor(a) ganhe amplo domínio, poder e submissão da vítima. Com isso, são atingidos os objetivos das ações de cunho violento neste tipo de relacionamento.

Mas a pergunta que fica no ar: 

Se a violência psicológica é tão subjetiva, imprecisa e abstrata então como uma vítima pode saber que está dentro de um relacionamento ou mesmo diante de uma situação de violência psicológica?

São os sentimentos das vítimas que constituem os melhores radares para detectar a presença do abuso psicológico. Mesmo que o seu universo psíquico tenha sido invadido e dominado pelo poder do(a) agressor(a), ela(ele) recorda das impressões e sentimentos iniciais que surgiram nas primeiras interações violentas.




Para que você perceba se está dentro de um relacionamento violento/abusivo, trago aqui alguns pontos que podem ser observados:

     1.Presença de um estado permanente de atenção

Como a vítima procura evitar as críticas e humilhações, ela (ele) sempre estarão atentos a maneira de falar, agir, comportar, enfim, de estar diante do(a) agressor(a). Muitas vítimas acreditam que se estiverem atentas(os) os mínimos detalhes, o(a) agressor(a) nada fará. Cabe sinalizar em relação a este ponto que você NÃO ESTÁ ERRADO(A). O outro tenta incutir isto em você para que possa dominar e tê-lo(a) sob o seu domínio.

2.Um acentuado aumento da insegurança

A vítima da violência perde a confiança em suas percepções e sentimentos bem como, diante do domínio irrestrito do(a) agressor(a), ela(ele) fica confusa(o) e insegura(o) de quais são seus(suas) habilidades.

3.Relutância em tomar decisões

Diante do estado de insegurança, a pessoa não consegue tomar decisões visto que ela não  tem domínio e confiança em seus sentimentos e percepções.

4.Uma certa voz crítica internalizada

Esta voz é introjetada pelas críticas, humilhações e vexames empreendidos(as) pelo agressor(a). Com o tempo, ele(ela) acredita na veracidade do que o(a) abusador(a) fala e assim, exige cada vez mais de si mesmo.

5.Repressão de sentimentos especialmente a raiva

  A raiva é a emoção mais reprimida da vítima de uma relação abusiva. Para manter o      relacionamento, ela costuma reprimir este estado emocional para tentar manter um suposto "equilíbrio e harmonia" dentro da relação. Além disso, costuma temer qual será a reação do(a) agressor(a) caso expresse esta emoção




6.Sensação de estar sendo dominada(o) por alguém

  A raiva é a emoção mais reprimida da vítima de uma relação abusiva. Para manter o    relacionamento, ela costuma reprimir este estado emocional para tentar manter um suposto "equilíbrio e harmonia" dentro da relação. Além disso, costuma temer qual será a reação do(a) agressor(a) caso expresse esta emoção.


7. Pede desculpas de forma constante

Ter a posse, domínio e controle da relação é o que governa as atitudes, comportamentos e expressões de uma uma relação abusiva. Quem está sob este domínio e controle, tem a nítida sensação de estar preso(a) e ser controlado por alguém mesmo que ele(ela) não esteja presente.


    8.Presença de sentimentos de desânimo e opressão

    Quem está em uma relação abusiva, acredita que é merecedor (a) do que está vivendo e por isso, sente necessidade de pedir desculpas tanto como uma forma de expiação da culpa quanto uma busca pelo comportamento "ideal “que a (o) liberte.

     9. Sente tristeza na maior parte do tempo

     Os relacionamentos abusivos costumam subtrair a alegria de viver das vítimas. Isto é consequência direta das constantes expressões e comportamentos negativos promovidos pelo(a) agressor(a) que causam tristeza e outras emoções negativas na vítima.

     Você percebeu como os sentimentos são os melhores indicadores para detectar uma relação abusiva/violenta? Você não provocou e não merece ser culpada(o), humilhado(a) e ridicularizado(a) seja pelo motivo que for! Mas e agora como faço para sair de uma relação abusiva?






O primeiro passo é sair da negação e identificar como ela acontece na relação. É fundamental o acompanhamento psicológico para que seus sentimentos e emoções sejam acolhidos bem como você adquira o controle de suas emoções e sentimentos. Qualquer dúvida sobre o assunto, estou à disposição!




Karine David Andrade Santos

Psicóloga/ CRP-19/2460

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ondelaquiser@gmail.com
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