Setembro 2016

26 setembro, 2016

O preço(muito alto!) de ser boazinha em um relacionamento abusivo

Quem não conhece uma pessoa que não sabe dizer não e adora agradar as outras pessoas? Ou então aquela ou aquele que se cala para não ser desaprovado (a) pelas outras pessoas? Pois é. Imagine esta mesma pessoa, sendo uma mulher que faz de tudo e mais um pouco para agradar o companheiro ou companheira.

O que será que faz com que esta pessoa tenha este tipo de comportamento? Como se comportam estas mulheres boazinhas em relacionamentos abusivos? Então é sobre isto e muito mais que vou prosear aqui com você. Vem comigo!

De alguma forma, estas pessoas boazinhas aprenderam que devem ter como prioridade o bem-estar das outras.

Esta prioridade pode ser observada em diferentes momentos quando a pessoa assume como um DEVER: atender as necessidades, pensamentos e expectativas alheias; cuidar das outras pessoas mesmo que elas não tenham solicitado; ser agradável e evitar magoar as outras pessoas; jamais negar um pedido ou mesmo decepcionar qualquer pessoa; estar sempre feliz e alegre e nunca sobrecarregar as pessoas ao redor com as suas necessidades ou problemas.

Mas por que cargas d´´agua uma pessoa se anula para agradar as outras pessoas? 


Estranho não é mesmo?



E aí que entra as expectativas e pensamentos mágicos das boazinhas e bonzinhos.

Muitos acreditam que, sendo desta maneira, as pessoas serão gratas e nunca irão decepcioná-las, não irão rejeitá-las ou criticá-las em algum momento, sempre vão gostar delas, jamais irão abandoná-las, sentirão raiva ou mesmo serão boazinhas e atenciosas como uma maneira de retribuir a bondade dos “bonzinhos” e boazinhas. ”

Tudo passa de expectativas, comportamentos e papéis fantasiosos e mágicos para que ela/ele se desvencilhe da rejeição, do abandono e até das próprias emoções negativas como medo e raiva.




Agora é que vem a cereja do bolo

Imagine meu caro/minha cara quando estas pessoas são mulheres acompanhadas de companheiros/companheiras abusivos (as)? Dá para imaginar o estrago não é mesmo?

Uma mulher boazinha em um relacionamento violento tanto irá agradar o (a) outro (a) como uma maneira de ser aceita como para amenizar/minimizar o tratamento rude que recebe.
Na verdade, o que esta mulher boazinha não enxerga é que esta sua característica potencializa a violência no relacionamento. Isto por que este clima permissivo encoraja o (a) abusador (a) a continuar sua saga abusiva naquela relação.

Pois, por favor, preste bastante atenção agora principalmente se você se identificou com o que foi falado até agora: por mais que você seja gentil, boazinha e atenciosa, a violência não irá cessar. Muito pelo contrário: você está entrando no jogo de quem abusa/violenta. E antes que eu esqueça: você não é a culpada pelos abusos/violências que tem sofrido! A culpa não é sua!

E uma outra armadilha espreita a mulher boazinha: o medo do abandono conforme mencionei. É este que faz com que muitas, mesmo tendo ciência de tudo o que eu falei no outro parágrafo, continuam dentro do relacionamento.

Dentro desta forma de agir e pensar, muitas costumam se desvalorizar, diminuir ou mesmo se anular para que o (a) companheiro (a) se sinta seguro, no controle da relação e pincipalmente insubstituível.

Nesta espiral de agradar, muitas se distanciam das suas verdadeiras necessidades, anseios, expectativas e por não ter frágil autoconhecimento, não consegue estabelecer limites tanto pessoais como na relação com as outras pessoas seja nas relações amorosas ou não.

Tal aspecto é um prato cheio para homens/mulheres abusivos para todo tipo de prática violenta pois a vítima não saberá estabelecer tanto os limites como reconhecer que aquela relação é violenta devido a “sua mania de agradar. ”

Mas e agora? Como estas boazinhas podem sair desta “enrascada”? Uma das primeiras questões é tentar descobrir o que está escondido atrás deste medo de ser abandonada/rejeitada.



Não é incomum encontrar relatos de mulheres que se esquivaram do seu próprio mundo emocional ou criaram esta “muralha” para afastar, amenizar, recuar, esquecer ou até mesmo negar alguma parte de si mesma ou experiência negativa na vida.

Muitas aprenderam que ser boazinha é a melhor maneira de evitar ou lidar com os conflitos e isto pode ser encontrado facilmente na educação de meninas quando elas são reprimidas em momentos de raiva ou fúria.

Para encerrar este nosso bate-papo, destaco a importância primordial da psicoterapia para o autoconhecimento, o reconhecimento da relação abusiva, a construção de limites dentro de qualquer relacionamento e principalmente para aquisição de recursos emocionais (em outras palavras “força) para sair de um relacionamento violento e desconstruir a síndrome da boazinha.

É isso por hoje!Tchau e até a próxima!!

Karine David Andrade Santos
Psicóloga CRP-19/2460


19 setembro, 2016

Será que existem algumas mulheres que gostam de sofrer?(Sobre isto e muito mais!)

Olá leitor(a)! Você já conheceu alguma mulher que tem o padrão de manter relacionamentos amorosos com parceiros/parceiras abusivos ou violentos? Será que esta pessoa não gosta de si mesma? Ou será que ela gosta de sofrer? Ou é verdade que mulher gosta de apanhar? 

Bom, os questionamentos são inúmeros e sobre isso que vou conversar com você hoje. Fica aqui comigo então!

Um primeiro ponto básico a ser trabalhado aqui é a importância da nossa família para a construção de nossos pensamentos e sentimentos tanto em relação a nós mesmos como sobre aquilo que esperamos das outras pessoas. 

Isto quer dizer que a maneira como os pais se relacionam e tratam suas crianças constitui não só a nossa base emocional como comportam uma série de mensagens e informações sobre como vamos nos relacionar com as outras pessoas e vice-versa.

Para tornar isto claro, vamos supor que os pais transmitem aos filhos, de forma direta ou indireta, que eles são valiosos e dignos de respeito pelas outras pessoas, possivelmente, eles vão esperar um tratamento digno por parte das pessoas. 

Mas, caso os pais ensine que esta criança não tem valor ou é indigna de alguma maneira, então ela vai buscar interações que confirmem de alguma maneira esta imagem negativa.

Ainda dentro deste aspecto da construção da autoimagem, cabe lembrar que as crianças também a constroem através da identificação. Assim, as formas como nossos pais se relacionavam e como um tratava o outro serão as nossas primeiras referências construção e opinião sobre relacionamentos futuros.



Outro ponto que cabe destacar sobre a importância da família neste ponto é que as crianças não só recebem mensagens verbais diretas como também interpretam as situações e comportamentos dos pais. E são estas mensagens que também servirão como alicerces para a nossa relação com nós mesmos e a maneira como nos relacionamos com o mundo.

Além disso, muitos costumam repetir os padrões de relacionamento familiares mesmo que queira fazer com que tudo não seja como era em sua família de origem. Não é incomum encontrar pessoas que lutaram para ter relacionamentos mais saudáveis que os pais mas acabam envolvidas em relações com parceiros (as) muito parecidos.

Você pode perguntar: então a família é determinante para a qualidade de um relacionamento do futuro? Não colocaria como determinante, mas ela exerce grande influência na forma como construímos a nossa autoimagem. 

E isto é ponto de partida para a forma como nos relacionamos com si mesmo, com as pessoas e como queremos/aceitamos ser tratados.

Então lembra o exemplo citado no início do texto? Será que esta mulher tem uma imagem negativa de si mesma? E com isso ela busca interações que, de alguma maneira, confirme esta autoimagem? Qual foi o padrão de relacionamento dos pais ou mesmo dentro do ambiente familiar?

Estes são alguns questionamentos que nos ajudam a desconstruir frases que atribuem culpa única e exclusiva as vítimas de violência. Mas não é só isso. Ainda tem mais farinha neste angu.



Uma menina quando vê uma mãe que aceita a situação de violência física e psicológica, ela recebe a mensagem de que o homem pode fazer o que quiser com uma mulher. Além desta mensagem, fica implícito que, para manter um relacionamento, a mulher deve tolerar/suportar o comportamento do homem.

Também são frequentes os casos de crianças que recebem a mensagem de que as mulheres são dependentes e desamparadas e por isso, não podem viver sozinhas dentro de um mundo assustador. Assim, elas aceitam qualquer tipo de relacionamento para viver “amparadas” por um homem e assim, eles se investem de todo poder dentro da relação. Até mesmo para bater, empurrar, desqualificar....

Existem os casos de famílias com dinâmicas disfuncionais e um dos clássicos deste tipo é aquela em que um dos membros se torna o bode expiatório. Não é incomum que as crianças sejam os principais alvos pela questão da dependência e vulnerabilidade. 

Com isso, pode acontecer que esta futura mulher tenha sido a culpada por tudo o que acontecia dentro daquela família. E assim fica a internalização da culpa que se fará presente nos relacionamentos amorosos ou não.

Mas, além das questões familiares expostas até aqui, cabe expor a forte influência da cultura machista e misógina que traz força para as ideias de que “as mulheres são inferiores que os homens “e precisam de um homem para cuidar de si mesmos. 

Isto faz com que muitas mulheres acreditem realmente que têm pouco controle e autonomia sobre suas próprias vidas. Assim, muitas costumam ser levadas pela vida e pelo controle de outras pessoas o que as tornam presas fáceis para relacionamentos violentos/abusivos?

Por fim, gostaria de salientar que estes foram alguns dos aspectos que exercem grande impacto na forma como escolhemos os nossos parceiros/parceiras. No entanto, somente uma avaliação detalhada e cuidadosa por parte de um profissional da Psicologia pode desenhar com mais qualidade quais são os fatores/aspectos envolvidos neste padrão repetitivo de relacionamento abusivo/violento.


É isso! Cuide-se!

Karine David Andrade Santos
Psicóloga CRP-19/2460


11 setembro, 2016

Por que algumas emoções são proibidas para homens?

Olá caro (a) leitor (a)! Você já conheceu algum homem que fica muito bravo quando alguém diz que ele está medo? Ou mesmo já viu um pai ou mãe fala para um menino que “homens não choram! E aquele homem que ficou “roxo de vergonha” diante de uma situação vexatória, mas, ao invés de admitir ou lidar com isto de maneira mais saudável, ficou furioso ou irritado e reagiu com muita violência?

Pois é. A questão que fica no ar é a seguinte: por que existem tantos homens que não conseguem lidar com emoções básicas tais como medo, raiva e alegria? Será que é natural esta maneira de muitos homens lidarem com estas emoções? É uma predisposição biológica?

É sobre isto e muito que vou falar aqui. Então fica aqui comigo.

Muitos estudos de gênero já debruçaram seus esforços para avaliar as diferenças na vida afetiva entre homens e mulheres. Uma das constatações é que a educação emocional das crianças é distinta para meninos e meninas desde o berço. Assim, as formas de sentir, expressar e lidar com as emoções são moldadas por parâmetros definidos social e culturalmente.

Isto quer dizer que tanto meninos e meninas APRENDEM através da imitação de pais, colegas e de outras pessoas como deve lidar com o seu mundo emocional. Com isso, eles aprendem que determinadas manifestações emocionais podem ser aprovadas, outras rejeitadas ou mesmo ignoradas/ desqualificadas.




Vamos trazer exemplos para tornar a explicação mais palpável: toda vez eu um menino for desqualificado ou reprimido quando expressar o medo, ele vai aprender aos poucos que esta emoção deve ser censurada e assim, quando adulto, não saberá lidar com esta emoção. Por sua vez, quando a raiva na menina é repreendida ou desaprovada pelos pais ou seu meio social, ela também irá reprimir esta emoção e irá expressá-la de forma indireta.

Mas o que está por trás desta educação tão diferente direcionada para meninos e meninas? É justamente o modelo machista. Afinal, ele é a origem de um modelo cultural que constrói formas engessadas e pré-definidas sobre o que é ser homem e ser mulher.

 Além disso, o machismo cria uma divisão nos papéis masculinos e femininos principalmente no campo afetivo. E isto fica muito claro quando este modelo dita que os homens devem se distanciar o máximo possível de qualquer manifestação emocional feminina para que possa manter sua virilidade e masculinidade. Assim, as emoções são classificadas entre permitidas e proibidas para homens e mulheres de acordo com a ótica machista.



Dentro deste aspecto, fica o questionamento: será mesmo que existiria uma predisposição biológica na manifestação emocional entre homens e mulheres? Ou será algo estritamente construído pelo meio sócio- cultural? Ou será algo multifatorial?

Bom, existem uma infinidade de estudos que apontam para uma vertente biológica bem como outros apontam para as influências socioculturais e outros tantos para as questões multifatoriais. E aí quem estará certo? Penso que, de acordo com os nossos valores e visão de mundo, escolheremos uma das duas vertentes para explicar estas diferenças na expressão emocional. Mas algo posso citar neste texto: precisamos, enquanto conjunto social e cultural, resolver diferenças e desigualdades antes de utilizar qualquer explicação biológica. Mas por que?

Recordemos que não faz muito tempo (a Segunda Guerra Mundial é um exemplo clássico para isso) que muitas explicações biológicas e “comprovadas cientificamente” foram utilizadas para justificar atrocidades, aprovar determinados arranjos discriminatórios entre os povos ou mesmo o uso de dispositivos para extermínio em massa.

Com isso, não estou querendo invalidar o caráter científico das chamadas ciências naturais ou biológicas. Não é isso. Mas quero chamar atenção para a forma como este campo da ciência pode ser utilizada para justificar desigualdade sociais e modelos discriminatórios como o machismo.

Não é preciso ir muito longe para perceber o quanto está presente o discurso naturalizante nas palavras de pessoas comuns, da mídia, da saúde e de diferentes instituições. É um discurso que tenta explicar, justificar e moldar determinadas situações resultantes de uma aprendizagem emocional machista.

Quantas pessoas não falam as seguintes frases ou mesmo frases parecidas: ” Ah, mas homem é assim mesmo: “não consegue chorar, falar o que está sentindo e por isso, ele está assim afastando de todos! ”; ”Eu não tenho medo por isso não vou usar o cinto de segurança (pode trocar o cinto por qualquer outro dispositivo de segurança ou preventivo). Quem usa isso é fresco! ”; ”Se você for macho de verdade, você vai beber todas! ”

Será mesmo que isto é natural? Ou não são as provas de virilidade aprendidos por homens e até mesmo por mulheres sobre o que é ser viril e macho de verdade?

Este texto não teve a intenção de trazer a verdade certa e pronta sobre as questões trazidas até aqui. Mas foi um convite para que tenhamos mais atenção sobre como meninos e meninas estão educados emocionalmente e que esta aprendizagem não seja interpretada como uma mera predisposição biológica no futuro.

Até mais!

Karine David Andrade Santos

Psicóloga CRP-19/2460

06 setembro, 2016

Você já percebeu o que é ruim ou bom para você? : o sofrimento da violência sexual


Olá, caro(a) leitor(a),

Sinto-me muito honrada de ter sido convidada pela psicóloga Karine Santos para escrever em seu blog e falar sobre violência.

Faço atendimento voluntário com pessoas que sofreram algum tipo de violência e desde então procuro compreender melhor a dor dessas pessoas e o comportamento que elas têm perante algumas situações da vida.
Você que já está familiarizado com os textos Karine consegue compreender um tipo de violência muito mais comum do que se imagina, infelizmente.

A violência sexual acomete boa parte da população mundial, e muitas vezes, não são nem denunciadas, e nem percebidas como violência. Essa percepção torna-se pessoal, conforme a cultura e as crenças que as pessoas têm sobre determinados comportamentos. 

Logo, o que eu entendo como um ato agressivo, outros veem com algo comum a sua cultura, talvez até como aquilo que tenham que “respeitar” e viverem conforme o que a sociedade em que se encontram acha certo.
Ok, não vou discutir aqui o que é certo ou o que é errado,  mas o que nos causa incômodo a gente precisa mudar. Primeiramente, é preciso entender que incômodo é este e como você se sente em relação a ele. Se te machuca, é uma violência que você sofre.

O problema é que, mesmo sentindo-se invadidas, agredidas e incapazes, algumas delas não enxergam tal ato como violento, e nisso, não discutem, ou não denunciam, continuando a viver da mesma forma, muitas vezes até se culpando por aquilo que acontecem com elas. 



São pensamentos de que merecem estar nesta condição, ou de que estão recebendo um favor, ou de que não podem decepcionar ninguém. Enfim, são infinitas formas de pensar que levam as pessoas a viverem essas experiências sem as considerarem tóxicas.

Dessa forma, é por isso que as estatísticas sobre violência sexual não apresentam a realidade em si. A vítima não denuncia ou por não achar necessário, ou por medo. E assim, continuam sofrendo violência do seu parceiro.

A casa, um local apropriado para a segurança de uma pessoa, muitas vezes é o ambiente em que ela mais sofre violência. Pesquisas já revelaram que boa parte dos agressores são pessoas que moram com vítima, ou de sua confiança, tanto para crianças, como para adultos.

Logo, é preciso entender que se te causa sofrimento, é violento para você.



Você já percebeu o que é ruim pra você? O que te causa dor? E se essa forma de viver é a que você realmente quer?

Quando for possível, é essencial conversar com aquela pessoa que lhe traz um desconforto e deixar bem claro as suas necessidades, o que é interessante para que vocês vivam bem. Se isso não for possível, dependendo da gravidade, é importante que se faça uma denúncia para que a vítima se sinta mais protegida.

Espero que este texto permitam que vocês reflitam mais sobre o modo que vivem e tomem uma atitude em relação aquilo que lhes façam mal.

Um grande abraço,


Tamires Mascarenhas, psicóloga clínica,
CRP 01/16416

As dores da vítima de violência obstétrica

Maria tem 25 anos, casada, grávida e frequenta o serviço público de saúde para consultas médicas e realizar seus exames do pré-natal. Mas o descaso é frequente seja na marcação das consultas ou no atendimento dos profissionais de saúde. Durante as consultas, o profissional de saúde não oferece muita atenção e assim, Maria não tem suas dúvidas sanadas sobre a gestação.

Com o tempo, ela fica “habituada” com a falta de atenção e pouca empatia do profissional de saúde. E assim com o passar do tempo, a gestação vai evoluindo e eis que Maria sente as dores do parto. Ela procura a maternidade mais próxima e lá após uma relativa espera, ela é atendida.

Durante o atendimento, são realizados os procedimentos de rotina, nenhuma pergunta é feita pelo profissional de saúde a gestante e logo depois, este fala que ela pode retornar para casa pois, a dilatação ainda não é suficiente. 

Mesmo com muitas dores, ela volta para casa e lá a intensidade das dores aumenta e assim, procura novamente a maternidade. Lá ela fica em observação e é submetida a vários toques que eram realizados por diferentes profissionais de saúde.

Maria se sente constrangida, mas, assim como durante a gestação, ela não fala. Durante este período, o companheiro de Maria chega a maternidade. Após um certo tempo, ela é levada para a sala de parto, mas seu marido é impedido de acompanhá-la. 

Devido a intensidade das dores, Maria chora e neste momento, um dos profissionais fala: ” Na hora de fazer, você não chorou”.

 Por mais que tente, ele não consegue reprimir as lágrimas. Durante o procedimento, ele se sente sozinha, irritada e humilhada pela falta de atenção e empatia da equipe que conversa sobre banalidades da vida e não oferece nenhum “conforto” emocional durante este momento.



Caro (a) leitor (a), esta história contada até aqui é fictícia, mas ela reúne diferentes abusos e violências direcionados às mulheres durante a gestação e o parto. Porém, antes de mais nada, não quero deixar aqui a impressão que todos os profissionais de saúde dos serviços públicos praticam este tipo de atendimento. 

Minha intenção neste texto não é generalizar. Mas chamar a atenção para a violência e abusos exercidos por alguns profissionais e instituições de saúde.

Para tornar esta realidade mais clara, trago aqui constatações feitas pela pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado realizada pela fundação Perseu Abramo em 2010. De acordo com o documento, 68% das entrevistadas tiveram seus partos na rede pública e cerca de 25% já foram vítimas de violência exercidas pelos profissionais de saúde.

Dentro do conjunto de práticas violentas, foram encontradas as seguintes situações: exame de toque doloroso (10%), negou ou não ofereceu algum paliativo para dor (10%), gritou com a mulher durante o trabalho de parto (9%) e não atendeu a mulher (8%). 



Também foram relatadas expressões que algumas mulheres ouvem durante o parto: não chora não que no ano que vem você está aqui de novo (15%), na hora de fazer não chorou/ não chamou a mamãe, por que está chorando agora? (14%), se gritar eu paro agora o que estou fazendo, não vou atender (6%) e se ficar gritando vai fazer mal para o seu neném, ele vai nascer surdo (5%).

Além destes maus-tratos durante o parto, é percebido que as mulheres são as principais impactadas pela violência institucional representada pela dificuldade no acesso, falta de profissionais para atendimento, escassez de atendimentos e longo tempo de espera. 

Cabe assinalar que as mulheres são as mais impactadas por que há uma condição imposta socialmente de que elas são responsáveis pelo bem-estar da família e assim, elas procuram estes serviços para algum membro da família.

O que se percebe, diante da violência institucional sofrida pelas mulheres em diferentes momentos da vida, é que a desigualdade e a exclusão são aspectos que tangenciam inúmeros aspectos da vida da mulher tanto nos espaços públicos como nos privados.

 Isto se torna emblemático pelo persistente conjunto de dificuldades que afetam o acesso da mulher a um trabalho com igualdade, à uma saúde com qualidade e à uma vida sem discriminação e violência.

Para frente a esta realidade nos serviços de saúde, são necessárias políticas e medidas que afetem a lógica que organiza a intervenção de profissionais e a dinâmica dos serviços de saúde bem como a responsabilização legal por atendimentos abusivos que violam os direitos e a autonomia das mulheres.

E quanto a lógica excludente e discriminatória no espaço privado, acredito que um dos pilares para o combate desta realidade é a educação voltada para a igualdade entre os gêneros. As desigualdades são aprendidas, criadas e reforçadas desde a infância.


E você, caro (a) leitor (a)? O que tem feito?
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